Seu Dotô!

Um gordo no médicoJá se falou muito aqui no Papo de Gordo da relação entre o médico e o paciente obeso. Falou-se em discriminação, em médico dizer que tudo que o cara sente é por culpa da gordura, entre outras coisas. Vamos tirar a máscara e falar claramente: muitos médicos respiram fundo antes de atender um paciente, digamos, lateralmente avantajado, não por discriminação, preconceito ou nojo. O ponto é que, a depender da sua especialidade, atender um obeso é difícil pra caramba e requer muito esforço, tanto físico quanto mental.

Sendo ultrassonografista, como eu, fazer exame de abdome total em paciente com gordura subcutânea espessa e gordura visceral abundante é um suplício! Isso porque o tecido adiposo atenua fortemente o feixe sonoro que tem que atravessá-lo, atingir os órgãos internos e retornar (eco) ao transdutor, formando assim a imagem do ultrassom. Sendo assim, para melhorar a qualidade da imagem é preciso comprimir a sonda no abdome do paciente, literalmente enterrando ela na barriga do sujeito (sem causar dor, evidentemente), muitas vezes com a mão e o punho desaparecendo no meio da gordureba. Isso tudo pra poder enxergar alguma coisa e realizar o diagnóstico.

Um gordo no médicoSe você é um cara simplista (e conhece um pouco de exame de imagem) deve estar pensando “manda o gordo fazer tomografia ou ressonância”. Além de serem exames bem mais caros (muitas vezes mais de 10 vezes o valor de uma ultrassonografia), de precisarem de contraste e só haver em grandes centros, a maioria absoluta desses aparelhos (incluindo os raios-X) são equipados com macas que suportam “apenas” 120 Kg, ou seja, não aguentam nem Dudu, nem Lucio. Isso cria um grande problema pro radiologista e maior ainda pro paciente que precisa do exame. Na tentativa de resolver esse problema, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro em 2007 teve a infeliz idéia de realizar exames de imagem em obesos no Jockey Club da Gávea em aparelhos para cavalo. Ou seja, chamou o gordo de bicho.

Um estudo publicado na revista Radiology no ano passado revelou que, nos últimos 15 anos, o número de exames diagnósticos que falharam devido à obesidade do paciente duplicou. Aqui no Brasil, no estado do Espírito Santo, um paciente obeso precisou entrar na justiça pra poder se submeter a uma Tomografia Computadorizada em um hospital que havia se negado a realizá-la devido ao excesso de peso. O paciente conseguiu uma liminar obrigando a instituição a perpetrar o exame, mas quando o usuário foi colocado na maca do aparelho, esta arrebentou e o exame não foi feito. Em resumo: paciente sem tomografia e hospital sem tomógrafo até consertar a maca (que demora pacas!).

Não é só radiologista que sofre com o paciente “gordinho”. O clínico também tem que rebolar. O problema já começa ao tentar aferir a pressão, já que muitos tensiômetros (ou esfigmomanômetros) têm uma braçadeira que não fecha em braços muito calibrosos. Depois vem o exame físico propriamente dito, que já fica prejudicado na percussão (quando o médico coloca os dedos indicador e médio da mão esquerda deitados sobre barriga do paciente e batuca neles com o dedo médio da outra mão) porque o som produzido sempre acaba sendo mais maciço que o habitual devido ao panículo adiposo espesso (que, no caso de certos gordos, não é mais um panículo e sim uma colcha de lã bem grossa, daquelas que só se usa no inverno do Sul). Continuando o exame vem a palpação, quando o médico tem que por “a mão na massa” e tentar sentir os órgãos internos e suas possíveis alterações. Quero ver quem é esse que vai palpar um abdome avantajado e dizer se a borda do fígado está “fina” ou “romba”! Dou minha cara a tapa!

Existem muitas outras especialidades que sofrem com o paciente obeso. Pensa que é fácil fazer parto de gestante gordinha? Isso quando a maca aguenta o peso. E cirurgia, então? Tem que passar por aquela gordura toda até chegar à cavidade que muitas vezes também é cheia de gordura visceral. Ortopedista também é outro que precisa dançar o samba do crioulo doido pra cuidar da coluna e dos joelhos do obeso, que geralmente se irrita quando ele diz que a dor é causada pelo excesso de peso (eu sei que revolta, mas é verdade, fazer o quê?).

A obesidade é um problema de saúde mundial que precisa ser cuidado com respeito ao paciente, dando a ele o direito de ser gordinho se ele quiser (no caso de um “gordo de raiz”), mas com saúde e tendo acesso a todos os métodos diagnósticos e terapêuticos como qualquer outro paciente sem pra tanto ser humilhado ou envergonhado de nenhuma forma. A medicina ainda tem que evoluir muito para conseguir esse feito e tem melhorado a qualidade dos seus aparelhos com macas de tomografia, ressonância e raio-X mais resistentes, aparelhos de ultrassom mais potentes (com opção de densidade de tecido) e leitos hospitalares mais largos. Já é um passo. Faça sua parte também, tenha paciência com seu médico quando ele tiver dificuldade de examiná-lo, saiba que ele estará fazendo o máximo pra garantir o melhor atendimento possível.

3 Comentários

  1. Resumindo, o mundo não é pros gordos, só as lanchonetes!

  2. Lêda disse:

    Não sei se fico com pena do gordo ou do médico!!

  3. Caca disse:

    A conquista do espaço dos gordinhos tem se ampliado notoriamente mesmo prq estamos preparando uma geração de obesos e o mundo captalita nao perde tempo na conquista desse mercado .Senhores doutores preparem-se para atender essa classe crescente de pascientes e boa sorte

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