Estadão 24h
Conrad PichlerPurê de Letrinhas
A última que escutei nos balcões da vida foi: “Nem Sarney fecha o Estadão”. Claro, o rapaz – provavelmente um repórter de jornal – ironizava o presidente do Senado e elogiava o famoso Restaurante e Lanchonete Estadão, que fica no Viaduto 9 de Julho, pertinho do Metrô Anhangabaú, quase no encontro da Rua Xavier Toledo com a Rua da Consolação.
Sim, caro leitor, mais um balcão! Mas pode ficar sossegado; já levantava para uma moça linda sentar onde eu estava. A gente trocou dois olhares; um para eu oferecer o lugar, outro para ela agradecer. Tenho certeza que vou pensar nisso por um bocado de tempo…
Hoje, eu me servi de um gnocchi recheado de queijo com molho à bolonhesa (se você é caipira como eu e não sabe o que é “guinóche”, pode chamar de nhoque mesmo) e pedi a pimentinha para acompanhar e reforçar o tempero – que é feito para agradar a todos os paladares e precisa de uma pitada disso ou daquilo para ganhar mais corpo.
Mas o que tem uma moça linda a ver com o nhoque recheado e “um restaurante de redação” que nunca fecha? Calma, tudo a seu tempo…
Estou eu andando pela Rua da Consolação, já pensando no café do Floresta no Edifício Copan (o mesmo do qual o Flavio sempre ameaça me jogar pela janela durante as gravações do Papo de Gordo)… Quando eu paro no semáforo, me lembro que tinha ido ao Estadão com meu guarda-chuva (inverno úmido esse, não é?), dou meia volta e vejo, do outro lado da rua, a moça para qual cedi o lugar!
Ela sorri e aponta o guarda-chuva, eu dou um meio riso e alguma parte dentro de mim aponta para o céu agradecendo, não pelo guarda-chuva, claro; quando finalmente atravesso, encontro com ela, mais um sorriso e eu: “Você vai perder seu lugar” (cada lugar é muito concorrido no Estadão, acredite). Ela bem que poderia responder: “Imagina, isso não importa mais, não importa agora”; mas, ela vira e diz: “Meu namorado está guardando o lugar, relaxa”. Eu peguei o guarda-chuva e, enquanto ela se virava e voltava para o interior da lanchonete, acenei um gesto feio e um palavrão para o destino. O garçom – nunca me lembro o nome dele, mas é o mesmo que sempre me atende – disse: “É rapaz, vai chover, mas… não na sua horta”.
Dei uma espiada para ver quem era o tal namorado. Claro, era o oposto da minha figura e, estranhamente, me lembrei que foi o mesmo rapaz com pinta de repórter que disse: “Nem o Sarney fecha o Estadão”. Se soubesse disso antes, não teria incorporado essa fala na minha crônica; ou, ao menos, teria aproveitado meu lugar mais um pouco, esperado o segundo tempo do jogo do Palmeiras na TV 20 polegadas e, para finalizar, pediria uma sobremesa.