Especial: Bicho da Goiaba

Conrad Pichler
@Conrad_Pichler

Publicado em 17 de outubro de 2009

Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler

A alimentação infantil preocupa todos os níveis da sociedade. Não raro vemos na TV reportagens falando sobre o assunto, mostram-se mães preocupadas servindo as lancheiras infantis (decoradas com seus personagens preferidos): pão integral com fatias de peito de peru, uma fruta da estação, uma garrafinha de suco natural – de preferência sem açúcar ou uma colherzinha de adoçante para evitar a acidez.

A criança vai para escola e divide o lanchinho com os amigos: ganha em troca de uma mordida no lanche, uma bisnaguinha doce recheada com creme de baunilha; por um gole de suco, um tanto do iogurte ou refrigerante do amigo; por um pedaço da fruta um ou dois quadradinhos de chocolate.

A tão bem balanceada lancheira, que vem decorada com os personagens preferidos dos filhos, transforma-se na canastra da Emília ou na bolsa do Gato Félix, de onde saem as mais diferentes comidinhas que nunca antes haviam passado pela cabeça dos pais preocupados.

Mas, antes que pensem em formar milícias, equipes de ação e forças-tarefa para erradicar a troca de lanches nos intervalos, o intercâmbio lancheira-lancheira, a consumação imprópria de alimentos no ambiente escolar, é preciso perceber como seria o oposto, onde as trocas, se são permitidas, não são possíveis, onde só é possível escolher dentre o mesmo, o igual. E não é preciso recorrer à imaginação ou ao escapismo dos personagens que decoram as lancheiras preferidas das crianças.

Nas escolas públicas, as crianças são alimentadas pelo Estado, em São Paulo, as prefeituras recebem fomento da União e do governo estadual para comprar os alimentos e pagar profissionais para prepará-los nas horas adequadas; cada período tem seu horário de intervalo, geralmente na hora média entre a entrada e a saída, que é chamado perspicazmente de “hora da merenda”.

Em qualquer época do ano, uma visita a uma escola pública vai revelar a estratégia interessante e muitíssimo bem sacada, por conta de sua economia e exatidão matemática, preparam-se logo cedo quatro grandes caldeirões (de 30 ou 50 litros, cada um para um dos períodos de aula) de arroz-doce (contém arroz, leite em pó hidratado com água filtrada, açúcar e canela). Assim que o sinal do primeiro intervalo soa como uma sirene das antigas fábricas do Brás ou como os avisos antiaéreos da Segunda Guerra, os pratos e talheres de plástico deverão estar preparados, para receber, direto do caldeirão quente, uma quantidade definida por uma grande concha de alumínio, de arroz-doce.

Como já havíamos antecipado, geralmente não ocorrem trocas, nem mesmo intercâmbios, nem os pais precisam se preocupar se os filhos estão se alimentando de algo que eles não pensaram anteriormente. Mesmo porque é incerto saber qual será o prato do dia até chegada a hora, à boca da cozinha da escola, dentre as variantes dispostas para evitar a fadiga alimentar: macarrão com salsicha, arroz e frango desfiado, bolachas água-e-sal com suco artificial de qualquer sabor insondável, ou uma grande concha de arroz-doce, talvez duas. Esses são os pratos mais igualitários possíveis que as escolas públicas podem oferecer.

Depois de 8, 9 ou 11 anos de estudos, digamos que as crianças aprendem a praticar esportes, lançando os pratos, ora cheios (“com presente”) ora vazios (“liso”) no meio da fila ou da turba para ver os outros garotos correrem. Uns aprendem a se esconder atrás das escadas de alvenaria (já que mesas de refeitório há muito não existem em algumas escolas públicas) ou aprendem que comer ao lado do grande latão que recolhe os pratos é ter para si um estoque quase ilimitado de boa artilharia.

E, talvez, antes de começarem os jogos, poderá se ouvir esse diálogo:

– Cara, hoje o arroz-doce tá meio ralo, né não?
– Orra, meu…
– Sabe que tá parecendo?
– Sei não…
– Leite cheio de… bichinho da goiaba…

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8 respostas para “Especial: Bicho da Goiaba”

  1. Nossa legal,
    fez me lembrar de tempos antigos, que eu vi a diferenças de escolas nas merendas, estudei em escolas publicas municipais e estaduais em jandira e barueri, lebrom que sempre tinha uma canjinha que vinha pré-prontas de não sei onde em uns galões, quando não era o arroz doce ,que eu odiava e ainda odeio eca, nas estaduais, mas em barueri como era municipal, a merenda de qualidade pq era mais gostosa, pois alem de ter sabor , sempre tinha uma fruta ou banana, maça , pera , melancia.

  2. Yuri Benati disse:

    Muito bom conrad como sempre vc se superando, a historia da pizzaria do copan ja tinha me dado fome, e agora me volto aos tempos de escola, onde quem tem mais pode até se preocupar em o que os filhos vão comer, mas aqueles que nada têm, dão graças a deus pelo prato de sopa com macarrão onde muitas vezes será a única refeição do dia!

  3. Tamara Ka disse:

    Vejam só o que eu encontrei de comida pra criança nesse blog abaixo!

    jhulyjohns.blogspot.com/2008_03_01_archive.html

    Pirulito de formiguinhas
    Pirulito de escorpião
    Pirulito de larvas
    Formiguinhas assadas (crisp!)
    Escorpiões assados (crisp!)
    Lavas assadas (crisp!)
    Mel com abelha
    Escorpião de caramelo
    Vodka de escorpião
    Chá verde colhido por macacos (nenhuuuum sentido)
    E depois ainda reclamam da mosca na sopa… É chique gente!
    comentários (3) TOP

  4. Leo Luz disse:

    Muito bom o texto Conrad.
    Lembrou-me da adolescência que passei na Escola Estadual, onde acontecia exatamente isso: guerrilha de comida. Eram pratos, copos, talheres, arroz-doce, laranja, maçã, etc. Um festival de fogos de comida para todos os lados, chegaram até proibir a merenda se não parassem.

  5. Opa, galera! Valeu mesmo pelos comentários… desculpem-me pela demora em responder.

    Abração e continuem por aqui ;)

  6. Estudei em escola pública, gostava da merenda quando era cachorro-quente (geralmente no dia da criança ou do estudante), ou bolacha com suco :D
    Fiquei com a imagem do arroz doce X bicho da goiaba, vc vai ser culpado por isso!!! :D

  7. Camila Dias disse:

    Bah!
    Levei só 1,5 mês pra comentar, … não tá chateado comigo né, Conrad?
    Esse lance de merenda escolar é um trauma pra mim, minha mãe mandava eu levar fruta… eu estudava numa escola particular, onde meus colegas levavam de tudo…tinha até uma amiga minha que levava salsicha de merenda (crua!!!), pra ver a situação louca das mães… Eu era louca por comprar cachorro-quente no "bar da escola" como chamamos lá em Porto Alegre. Nossa, e um copo de refrigerante seria um néctar dos Deuses… e eu com aquela maçã na mão… uia!
    Claro eu era a verdadeira "Olívia Palito" na época, mas não era nem por anorexia, nem por desconhecer as coisas boas do junk food… era por proteção em casa. Vai ver que é por isso que eu virei uma doida por doces mais tarde.

  8. Katia disse:

    Nossa adorei lembrar do meu tempo de escola eu e meu marido a gente da muita risadas sobre isso até hj nos conhecemos na mesma escola e a gente sempre lembra de arroz doce…rsrsrsrs

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