Batendo onda

Eduardo Sales Filho
@eduardo_sales

Publicado em 04 de dezembro de 2007

Estava com medo de fazer a endoscopia. Não é nada pessoal, mas a idéia de um tubo sendo inserido através da minha garganta até o meu estômago não me agrada nem um pouco. Mas devo dar graças a Deus que o médico não pediu uma colonoscopia, definitivamente poderia ser muito pior.

Para quem nunca fez um exame desses, cabe aqui uma pequena explicação do procedimento retirada daqui:

“O médico utiliza um tubo fino e flexível, chamado endoscópio, que possui lentes e luz próprias, permitindo a visibilização da mucosa através da outra extremidade do aparelho ou de um monitor de video.”

De modo geral, esse exame é feito com o paciente completamente sedado, dessa forma a sensação de desconforto é menor e o médico consegue realizar o procedimento sem maiores percalços.

Porém, fiquei sabendo que meu plano de saúde não cobre anestesia para o exame. Várias pessoas que já fizeram endoscopia pelo Planserv (plano de saúde dos servidores do Estado da Bahia) contam que ficaram acordadas durante todo o procedimento. Não seria o bastante enfiarem um tubo na minha garganta, eu ainda tinha de estar acordado durante todo o processo… que maravilha.

Quando finalmente criei coragem para marcar o exame, a atendente da clínica me disse pra levar um acompanhante. Eu moro sozinho, meus pais são do interior, os poucos parentes que tenho em Salvador trabalham durante o dia, mesma situação vale pros amigos. Não tinha jeito, eu teria de passar por isso sozinho.

Quando cheguei na clínica, perguntaram pelo meu acompanhante.
– Minha irmã tá estacionando o carro e já vem. – menti descaradamente.
– Ainda bem, porque o senhor não poderá dirigir depois da anestesia.
“Anestesia?”, pensei com meu botões. “Nah… ela deve estar falando do spray que usam para deixar a garganta dormente!”

Entrei na sala de exames, sentei na maca/mesa e a enfermeira apareceu com o tal spray. Depois de duas borrifadas a minha garganta já não me pertencia mais. Fui orientado a deitar de lado na maca e obedeci prontamente. O médico entrou na sala, enquanto ele se apresentava e fazia peguntas genéricas, a enfermeira espetou alguma coisa em minha mão. “Deve ser soro”, pensei. E esse foi meu último pensamento lógico por um bom tempo.
A partir daí uma série de acontecimentos se seguiu, e não recordo claramente de quase nenhum deles.

Sei que não apaguei completamente porque lembro de me surpreender quando o médico acabou o exame, achei que foi rápido demais. Lembro da enfermeira me ajudando a andar, morrendo de medo que eu caisse no chão pois ela não conseguiria me levantar sozinha.

Lembro de ficar sentado numa poltrona por alguns minutos que pareceram horas. A sala toda girava ao me redor. As paredes mudavam de cor e o rosto da enfermeira ficava cada vez mais estranho.

Lembro que tentei beber água e quase morri afogado, a minha garganta ainda estava anestesiada pelo spray e a glote não conseguia trabalhar direito.

Lembro de ter falado ao celular com algumas pessoas, só não lembro quem elas eram.

Lembro da atendente da clínica perguntando pela minha irmã que tinha ido estacionar o carro e ainda não havia voltado.

Lembro que a anestesia bateu onda mesmo! Imagino que o efeito de LSD deve ser parecido com aquilo.

Quase uma hora se passou, eu começava a recobrar o controle sobre meu corpo e minha mente. A sensação de bebedeira estava indo embora. Andei pela clínica mais um pouco, só pra me certificar que conseguia caminhar em linha reta, então fui pro carro e dirigi até em casa.

Não recomendo a experiência pra ninguém. Corri um risco tolo e completamente desnecessário, mas é fato que cheguei vivo e inteiro.

O resultado final do exame segue abaixo.
Desnecessário dizer que não faço a menor idéia do que isso aí significa.
Conclusão:
Hérnia Hiatal por deslizamento.
Esofagite Erosiva Grau – B
Pesquisa de H. pylori deu negativo.

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