KPC e os antibióticos

Vinicius Tapioca
@DrTapioca

Publicado em 22 de dezembro de 2010

Nos últimos meses os hospitais brasileiros têm sofrido com o “ataque” da superbactéria Klebsiella pneumoniae, produtora de Carbapenemase (KPC), o que assustou muito a população. Embora o Ministro da Saúde tenha tranquilizado a todos (ou pelo menos tentado) informando que se trata de uma infecção exclusivamente nosocomial que tem atingido “apenas pacientes debilitados” e que com as medidas da Anivsa “a situação vai ficar sob controle” ficam as perguntas: como surgiu essa bactéria, como combatê-la e como impedir que novas superbactérias surjam?

Aula chata de biologia: Bactérias são seres unicelulares microscópicos que podem viver livres ou em colônias na presença de ar (aeróbias) ou na ausência deste (anaeróbias). São muito úteis ao nosso organismo no auxílio à digestão e no controle do pH vaginal, por exemplo, mas também podem causar grandes infecções e até nos levar à morte. Elas possuem a capacidade de compartilhar informações genéticas através de plasmídeos (estruturas de DNA circulares que são transmitidas de uma bactéria para outra) e essas informações podem conter, por exemplo, a fórmula para resistir a certos tipos de antimicrobianos. É como se uma bactéria mandasse para a outra um e-mail com o cheat code para que ela possa ativar o god mode (galera gamer, um beijo no coração). Daí a preocupação do gene da superbactéria se espalhar e criar uma grande população de microorganismos multirresistentes.

A principal causa da resistência bacteriana é o uso indevido e abusivo de antibióticos. Isso ocorre porque durante muitos anos a venda de antibióticos no Brasil (e em muitos países) não era controlada pelos órgãos de fiscalização e isso estimulava a automedicação e a indicação desses fármacos por profissionais não habilitados. Quando se usa um antimicrobiano por tempo menor que o indicado ou com dose menor que a recomendada isso promove uma seleção dos germes mais resistentes, matando apenas os mais fracos. As bactérias sobreviventes, então, acabam aprendendo a resistir àquele tipo de medicamento e se tornam imunes a ele, necessitando, da próxima vez, lançar mão de uma droga mais potente. Repetindo-se o processo com a nova medicação as bactérias vão ficando cada vez mais resistentes a vários antibióticos e começamos a ficar sem armas para combatê-las, mais ou menos como um Borg de Jornada nas Estrelas (galera trekkie, um beijo no coração).

Recentemente a Anvisa publicou uma nova norma de venda e prescrição de antibióticos no território nacional. Agora, todos os antimicrobianos deverão ser prescritos de forma legível (o mais difícil é isso) em receita de controle especial (branca com um número de controle em cima) em duas vias (1ª via para a farmácia e 2ª via para o paciente) e o responsável pela farmácia terá que registrar a venda no SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados). Com isso espera-se que diminua a automedicação e o uso indevido desse tipo de fármaco, que no Brasil corresponde a mais de 90 substâncias dividas em várias marcas e laboratórios diferentes. Essas medidas entraram em vigor em 28 de novembro e os fabricantes terão seis meses para incluírem na bula e nas caixas a seguinte informação: “Venda sob prescrição médica – só pode ser vendido com retenção da receita”.

Outra medida imposta pela Anvisa é o uso de álcool gel em todos os hospitais do país (públicos ou privados), mais ou menos como se recomendou na época da Influenza A H1N1, mas dessa vez parece que é definitivo. Desde que eu fiz o curso de controle de infecção hospitalar (tem tanto tempo que nem lembro quando foi) já se falava da necessidade de usar álcool gel em todas as enfermarias, apartamentos, ambulatórios e salas de procedimentos do hospital, mas nunca se exigiu realmente o uso, só se “recomendava”. Infelizmente, o ser humano só obedece quando é obrigado ou multado (vide o cinto de segurança e as cadeirinhas de criança nos automóveis).

Acredito que com essas medidas e com o uso de novas drogas possamos limitar a prevalência da KPC aos pacientes hospitalizados e com doenças debilitantes (câncer e transplantados, por exemplo) e prevenir a transmissão comunitária dela, o que provocaria uma epidemia devastadora para a população. Você também pode fazer sua parte: Sempre que visitar um paciente em um hospital, independente do motivo do internamento (doença, cirurgia, parto etc.) sempre lave as mãos com água e sabão ou álcool gel. Outra coisa que se pode fazer é seguir rigorosamente a prescrição médica em relação aos antibióticos, evite “esquecer” a hora das tomadas e não interrompa o tratamento antes do previsto, se são 7 dias, são 7 dias e não 5. Seja responsável!

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