Um clichê de Natal – parte 1 (de 3)

Lucio Luiz
@lucioluiz

Publicado em 17 de dezembro de 2011

Gordo de Raiz, por Lucio Luiz

Natal. Tempo de confraternização. Época de distribuir presentes e comer peru (ou chester, que tem mais peitão). A alegria emana das ruas e das caixas registradoras. O mundo está alegre, com exceção de Rodolfo Escrúge, sexagenário dono de uma loja que vende produtos vegetarianos. Rodolfo – ou senhor Escrúge, como prefere ser chamado pelos subordinados – é uma pessoa amarga e desgostosa da vida, especialmente quando chegam as festas de fim de ano e vê seu faturamento cair vertiginosamente.

– Senhor Escrúge…
– O que foi, Roberto?
– Er… Eu já fechei o caixa hoje… Infelizmente, o peru de soja não foi o sucesso que esperávamos…
– Raios! Esses carnívoros malditos só pensam em gastar com ceias caras! Por que não gastam com ceias vegetarianas caras?
– Eu… Queria saber…
– O quê, energúmeno?
– Eu poderia sair mais cedo amanhã? É que eu preciso comprar o presente do meu filho…
– Comprar! Comprar! As pessoas só pensam em comprar! Se ao menos pensassem em comprar o que eu vendo! Natal é uma bobagem! Você vai trabalhar no seu horário normal e nem pense em sair mais cedo!

Rodolfo Escrúge é um escroto, deu pra notar. E a coisa até se encaminharia para um óbvio desenrolar, com fantasmas dos Natais passado, presente e futuro e essa pataquada toda. O problema é que o narrador bebeu um suco feito com cogumelos estranhos oferecido por uma cigana de aparência insuspeita e, a partir de agora, tudo pode acontecer.

Naquela noite, Rodolfo Escrúge foi para sua casa, onde morava sozinho desde que seu companheiro, Jacó, falecera alguns anos antes. Ao ouvir estranhos barulhos, Rodolfo ficou apavorado, tomou uns remédios fortes e dormiu. Com isso, acabou não recebendo a visita da alma de Jacó, que chegara arrastando pesadas correntes à beira de sua cama.

– Rodolfo! Rodolfinho! Acorda, meu amor… RODOLFO! Ai, essa bicha velha deve ter tomado aquelas bolinhas que fazem dormir que nem pedra. Bah, e eu que queria avisá-lo da visita dos fantasmas… Que ele se f#%@, então. Não tinha tempo nem pra colocar umas florezinhas no meu túmulo no aniversário do nosso namoro, né? Então também não vou perder tempo te alertando sobre o que está por vir!

No dia seguinte, após acordar pensando em ter que encarar mais um dia buscando convencer as pessoas de que uma alimentação livre de carne é muito mais saudável e livre de culpas, Rodolfo Escrúge olhou para o lado e viu uma mulher roliça e alegre, com cara de tiazona de novela das seis. Ela aparentava estar ensanguentada. Rodolfo achou muito estranha aquela figura diante de si, mas imaginou que poderia ainda estar sonhando… até que olhou para sua cama e viu a cabeça decepada de uma rena em seu travesseiro!

– AAAAHHH!!! Que… que p*##@ é essa!!??
– Oi, Rodolfo Escrúge. Eu vim te buscar.
– Você… é a Morte?
– Não… Eu sou o fantasma dos Natais passados e vim para lhe ensinar o verdadeiro espírito dessa tão bela data.
– E essa cabeça de bicho morto na minha cama? Foi você que colocou?
– Não. Isso é um mistério.
– Mas você está cheia de sangue!
– É suco de tomate. Eu peguei da sua geladeira, espero que não se importe. Me sujei porque tomei um susto com essa pobre reninha morta e derramei tudo na minha roupa. Mas não vamos perder tempo. Venha comigo.
– Ir contigo?
– Você nunca viu a história dos fantasmas? O Mickey e até os Muppets já fizeram, caramba. Você tem que me acompanhar, vai descobrir coisas do passado que são incríveis e vai se tornar uma pessoa melhor. Vamos logo que eu estou com o cronograma estourado!

Rodolfo, a contragosto, acompanhou a estranha mulher e entrou em um túnel de luz. De repente, tudo ficou preto e branco e ele reconheceu a antiga rua em que morava. A mulher o conduziu até uma janela e ele pôde ver a si mesmo, aos doze anos, extremamente feliz enquanto comia um peru assado inteiro. E uma picanha mal passada. E um pouco de galinha ao molho pardo. Tudo isso acompanhado por duas garrafas de Coca-Cola.

– Hmmm… Sua vida até que era boa…
– Sim… Meus pais eram ricos e nós tínhamos um Natal maravilhoso todo ano. Qual o problema?
– Então… Qual foi o trauma que fez você detestar o Natal?
– Não interessa!
– Outra coisa… Você adorava carne… Por que resolveu se tornar vegetariano?
– Também não interessa! Podemos ir?
– Tá bom, tá bom. Mas, antes, preciso lhe falar sobre algo.
– Que eu vou ver o fantasma do Natal presente? Tá, grandes coisas.
– Não. É que você precisa me ajudar antes de voltar para sua época.
– Ajudar em quê?
– Você precisa matar o Papai Noel!

Continua…

No próximo capítulo: As misteriosas intenções do fantasma do Natal passado, o motivo de Rodolfo Escrúge ter se tornado um vegetariano sem coração e a origem da cabeça decepada da rena… Nada disso será explicado. Mas pode ser que Papai Noel apareça.

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8 respostas para “Um clichê de Natal – parte 1 (de 3)”

  1. Claudinei disse:

    Caraaaamba, “tio” Lúcio!
    Cadê o resto da história? Fiquei com vontade de ler! Mas não entendi por que o cara tem o mesmo nome da “rena de nariz vermelho”…

    Abraço!

  2. EmersonMH disse:

    Bicha velha e vegetariana! Hahahaha! Como eu adoro textos politicamente incorretos. Muito bom! Esperarei pelo próximo ep.

    Vc devia mandar esse texto para um site de vegetarianos, ou melhor, veganos, que agora resolveram encher minha caixa postal dizendo que eu deveria comer capim e parar de usar sabonetes!

  3. paulo henrique disse:

    cara isso t meio louco(só meio louco)mas ta muito legal euvou esperar ate quarta pra ver no que vai dar este devaneio do tio lucio

  4. […] ainda não leu o capítulo anterior, confira-o imediatamente. Não que seja lá muito […]

  5. […] (tentar) entender a história, leia o primeiro capítulo e, depois, o segundo […]

  6. […] e volte a gostar do Natal. Ou só fique deprimida, isso não é ciência exata. Só que, esse ano, o homem que eu deveria buscar sumiu, assim como meus colegas fantasmas do passado e do presente. E ninguém me avisou […]

  7. […] e volte a gostar do Natal. Ou só fique deprimida, isso não é ciência exata. Só que, esse ano, o homem que eu deveria buscar sumiu, assim como meus colegas fantasmas do passado e do presente. E ninguém me avisou […]

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